terça-feira, 11 de outubro de 2011

RETOMANDO A CONVERSA



Laureus nobilis



Transformar, transtornar

Tranströmer recebe o prêmio, coroando carreira de muitos prêmios. É homem culto, que li apenas em traduções para o inglês: e lá me parece morno, autor de poesia acomodada, como em geral convém ao Nobel (há exceções, natürlich). Observa as coisas liricamente sóbrio, e em geral apõe uma abstração final que leva tudo para um basbaque sublime ou desconectado da realidade imediata.

Entendo esses prêmios, mas entendê-los não me diz nada, não diz nada para a literatura. Seria muito melhor premiar alguém minimamente desafiador, e de modo que o tal dinheiro fosse parar em algo efetivo para fazer da art poétique algo um pingo mais relevante neste mundo de palavras ordinárias, ditas a esmo. Ou, querendo premiar um europeu de idade avançada, e muito premiado, que se desse o caneco a Enzensberger, de fato o grande poeta europeu, hoje. E traduzido, bem ou mal para qqer língua, percebe-se ainda assim o peso de sua poesia.

Tranströmer é, como disse, culto, e por isso é certamente um recessivo nesse nosso mundo de grunhidos; o que é, por outro lado, muito insuficiente para a poesia. Trata-se apenas daquilo que esse mesmo mundo já aceita sem o menor esforço, é confortavelmente uma voz oficial, e oficializada. Não o transforma, nem o transtorna.

Prêmios, anyway, costumam dar nisso. Ou, quem sabe, as traduções para o inglês. Ou talvez eu não esteja sugerindo uma coroa de louros, mas uma de arame farpado. Deixe as coisas como estão.


Crítica retrospectiva & prospectiva


Tudo, segundo um argumento fatalista, está em crise. Pode nem ser fatalista, o tal argumento, mas o fato é que, por acharmos que tudo deve ser alvo de escrutínio meticuloso, ou nevrótico, tudo obviamente deságua na conclusão de crise.

A crise é um cisma, um corte, um non sequitur. Você verá crise em tudo, se for o que quiser ver.

Agora, não é verdade que tudo esteja em crise. É verdade que é uma época de garotos-enxaqueca, de gente que sobrepensa tudo, sem pensar o suficiente, e sem os dados necessários para pensá-lo direito.

Por exemplo, a crise da crítica: como alguém pode dizer isso? Se se for inspecionar a “crítica”, nessa alcunha enorme e generalizante, pode-se encontrar de tudo.

Seria sensato, por exemplo, propor o seguinte: não temos problema algum com uma crítica que chamaria retrospectiva, no sentido de que olha para e o passado. Difícil achar tanto fruto bom e pronto pra comer quanto há nesse ramo da árvore.

Quem diz que há uma crise nisso precisa de uma camisa de força.

Crise há, e é mais do que evidente, aliás, numa crítica que chamaria prospectiva: naquela crítica que lia o que estava acontecendo, e que especulava sobre os motivos e efeitos daquilo. Estou usando os verbos no passado.

Porque nisso há uma crise, e tão séria que restaram apenas dois tipos moles de críticos nela: o Hardy Har-Har, que repete o bordão de “oh vida, oh céus” e é, enfim, o velho e eterno lamurioso, para quem tudo está acabado. E o outro tipo é o maníaco repetidor de bordões, fabricados para rotular produtos vencidos, tentando dotá-los de um charme que não lhes pertence - esse em geral fala de bestsellers e já nem é crítico.

(Perdão, há também o mau poeta que ganha coluna em jornal e resolve ir à forra com seu pequenino e enfadonho poder recém-adquirido, e banca o cricrítico para falar mal de poetas infinitamente melhores do que foi, pois o que lhe restaria fazer senão dar voz a seu rancor liliputiano? Esse tipo é bem visto, porque a tolice tem sempre um público numeroso, como sabeis).

Em resumo: seria bom, quando as pessoas fossem se queixar, que soubessem ser mais objetivas. Não há crise geral.

A literatura brasileira vai muito bem, por exemplo. O que não há é gente para dar por isso.


Voltar

Voltar para o Brasil é pôr as coisas em perspectiva uma segunda vez: você reproporcionou tudo no exterior, e precisa fazer esse exercício de novo ao retornar.

Qualquer um pode (ou quase qualquer um) fazer o rotineiro roteiro dos desastres ridículos das nossas livrarias, bibliotecas, museus, sistemas de ensino, etc. É muito simples. O impacto da desproporção na volta faz, por si só, o serviço.

MAS (e é um mas fundamental, em caixa alta) há um espaço enorme de manobra para qqer ação renovadora, para uma bela lufada de ar. Quaisquer que sejam as sobrantes qualidades de um aparato cultural europeu, o fato simples & direto é: eles têm demasiado; a tradição pesa sobre o presente, que não sabe o que fazer do passado. Ignorá-lo? Desprezá-lo? Brigar com ele? Cultivá-lo discretamente? Indiscretamente (mas isso talvez seja visto como coisa de gente conserva)? Guardá-lo como um tesouro? Para turistas? Para os educados e os pernósticos que farão romaria para presenciá-lo? Ou todas as hipóteses ao mesmo tempo e etc (o que é muy pós-moderno).

Naturalmente, não acontece apenas de um modo ruim: a tradição predispõe muitas vezes ao melhor. Uma tradição arquitetônica como a de muitas cidades italianas faz com que alguém se acostume àquele tipo alto de civilização no que toca a organizar o espaço público. Uma tradição teatral como a da Inglaterra produz quase que por brotamento atores extraordinários, que falam seus papéis como se tivessem acabado de pensá-los. A tradição européia da prosa exige certa disposição mental para estruturar decentemente um parágrafo, uma educação centrada na observação; a filosofia européia, por mais ordinária que seja hoje, é baseada em ALGUM conhecimento efetivo, etc.

São fatos, e são mais do que suficientemente bons em si mesmos, sobre tradição.

SE nós tivermos algum bom senso, o fato de que temos tanto para aprimorar será aproveitado naquele potencial não explorado e que pode, a qualquer momento, eclodir como algo novo dentro uma configuração já acostumada a uma porção de coisas numa determinada (des)ordem.

Quero dizer: que o resultado apresentado seja uma nova recombinação. E “nova” não significa um negócio nunca antes visto, não o ex nihilo que varre a cultura pra longe, pondo no lugar um rascunho desajeitado, feito por preguiçosos, mas algo que apresente uma economia interna mais enxuta, mais adaptada, mais efetiva e transformadora para o que se vive hoje. Há oportunidades fecundas para isso, aqui.

Quem vive apenas em seu próprio tempo não transforma nada; quem vive no futuro repete o passado; quem vive no passado não vive.

Espero que a chave para essa porta vá se tornando mais visível.


Simone Homem de Mello


André Dick me enviou Prévia Poesia, volume de poemas com 10 poetas diferentes, organizado por Dick lui-même, e que chegou apenas agora às minhas mãos & olhos, pois antes estava, como sabeis, em Londres.

É tardio o que tenho a dizer, mas é breve também: não conhecia a poesia de Simone Homem de Mello, e foi uma bela surpresa conhecê-la a partir de seus novíssimos inéditos editados.

Seus poemas na antologia são preciosamente sintáticos, únicos em sua fatura complexa de interrupções seguidas, em sua construção inteligente e muitíssimo pensada, e de música do pensamento, arguta, instigadora: nos dão a impressão equívoca de que tudo se amarra em algum ponto, mas na verdade são quebra-cabeças enganosos. Apreciei muito.

É raro ler poemas novos tão bons e peculiares, e em seqüência. Sou informado de que são poemas para um novo livro, como é o propósito do Prévia Poesia, isto é, dar uma possibilidade de espiada prévia no que virá em volumes individuais depois.

Mas isso é dizer nada, sem a leitura de 1 poema ao menos, sobretudo porque é muito sem graça a mera descrição de suas virtudes.

Ponho aqui este, e ele, como todo bom poema, fala por si:


DE UMA FOTOGRAFIA ANÔNIMA

De porcelana, e a pele, máscara em branco ri
rente à face, e nesta sorriso menos, minguante.
Posam modelo e máscara entre tecidos, vasos
afilam ao fundo, da cerâmica abaula cada lustre.

Anônima. Jovem, peito descoberto, deitada segura
máscara junto ao rosto, ela à mostra até a cintura.
Prova sobre papel albuminado a partir de negativo
de colódio úmido em chapa de vidro; cerca de 1870.

Seminua, só pele entre estampas e dobras, exposta
ao tempo, até que a imagem, até o sorriso ceder em.
Gravado entre dentes, porcelana, já o riso em branco,
algo assombra, talvez por imune ao tempo, a sombra.

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